Caso Varginha: 30 anos depois, ex-militar diz que inventou relato sobre ET após oferta de R$ 5 mil de ufólogo: 'História não aconteceu'
08/01/2026
(Foto: Reprodução) Suspeita de pagamento a militares lança dúvidas sobre depoimentos do caso ET de Varginha
Reprodução TV Globo
Um ex-militar do Exército revelou, após 30 anos, ser mentira o depoimento dado por ele nos anos 90 a um ufólogo sobre a atuação das forças armadas no transporte de uma criatura extraterrestre em Varginha (MG). Segundo o homem, que era soldado à época, o relato, usado para sustentar a narrativa do caso, foi inventado após uma oferta de R$ 5 mil feita pelo ufólogo a ele.
A entrevista foi exibida nesta quinta-feira (8), no último episódio da série documental "O Mistério de Varginha". Além da fala do ex-soldado, o especial mostrou também o relato de outro ex-militar que manteve a versão dada à época sobre a presença do ET em um hospital da cidade com monitoramento do Exército.
O episódio também reforça o testemunho das mulheres (civis) que, mesmo com impactos negativos na própria vida, sustentam com sinceridade e detalhes a história de que avistaram o alien em um terreno baldio do município.
📺 Uma coprodução entre Estúdios Globo e EPTV, o especial é composto por três episódios exibidos nos dias 6, 7 e 8 de janeiro em todo o Brasil, logo após "O Auto da Compadecida 2". Eles revisitam um dos casos ufológicos mais conhecidos do mundo, que projetou a cidade mineira internacionalmente após relatos de encontros de moradores da cidade com criaturas extraterrestres.
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Testemunhas oculares do caso ET de Varginha:
As três amigas que viram a criatura em um terreno baldio - mantêm a versão até hoje
O médico que contou ter presenciado atendimento médico ao ET - apresentou e mantém a versão atualmente
Três militares que contaram ter participado da captura e transporte do alien - dois desmentem a versão inicial e um mantém
Contradições das testemunhas militares
Nos anos 1990, depoimentos de bombeiros e militares do Exército ampliaram a repercussão do episódio, que até então se limitava ao relato de três meninas que disseram ter visto uma criatura estranha em janeiro de 1996. À época, o ufólogo Vitório Pacaccini afirmou que os relatos eram legítimos.
"Todas as informações estão embasadas em depoimentos de testemunhas autênticas. Portanto, ninguém aqui está inventando nada", disse na época.
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Ufólogo Vitório Pacaccini afirmou na época que depoimentos de militares eram autênticos
Reprodução TV Globo
Três militares deram depoimentos ao ufólogo responsável pelas primeiras investigações do caso: um bombeiro, que disse ter participado da captura da criatura; um cabo do Exército, que afirmou ter visto o suposto ET em um hospital; e um soldado que, à época, declarou ter atuado no transporte do ser de Varginha para Campinas.
O documentário ouviu os dois militares do Exército e obteve um áudio do bombeiro. Atualmente, tanto o bombeiro quanto o soldado afirmam que os relatos foram uma farsa, enquanto o cabo mantém a versão apresentada inicialmente.
Entenda a seguir o que cada um dizia no passado e diz atualmente:
Militar 1, o Bombeiro
Militar 2, o Cabo
Militar 3, o Soldado
Bombeiro voltou atrás em áudio de 2019
Uma das principais evidências divulgadas na época foi uma fita cassete com a voz de um militar do Corpo de Bombeiros afirmando que a criatura capturada “não era deste mundo”. O áudio foi tratado, por anos, como prova central da suposta captura.
"O Corpo de Bombeiros colocou dentro de uma caixa. Uma caixa de madeira coberta por um saco. Não é deste mundo. Não é", dizia a gravação da época.
Anos depois, em 2019, um dos principais ufólogos da nova geração, João Marcelo Marques Rios, localizou o autor da gravação, que viria a morrer 4 anos depois, em 2023.
Veja os bastidores da série documental "O Mistério de Varginha"
"Ele estava em Três Corações e já estava na reserva. E ele, para nossa surpresa, para nosso espanto, disse que aquele áudio que gravou era um enredo. Ele foi persuadido e instruído a gravar o que está naquele áudio. Falou assim: 'Não houve nada, não aconteceu nada'. Aquela história foi toda inventada", disse o ufólogo João Marcelo.
Em áudio inédito, o militar negou a história e disse que foi orientado a gravar o depoimento.
"Manipulada, manipulação. Não teve nada. Para encurtar, não teve nada. Nada, foi tudo uma manipulação. Eu quero esquecer isso, eu quero acabar com essa manipulação".
"Acho que a pessoa hipnotiza você. Você fala isso, isso, você topa falar? De tanto que a pessoa vai 'papapá' na tua cabeça que você quer acabar com isso, tá? O que você quer que eu fale? Depois eu arrependi. Logo depois eu arrependi", disse o bombeiro militar na nova gravação.
Bombeiro nega captura de criatura em aúdio gravado em 2019
Reprodução TV Globo
O ufólogo Vitório Pacaccini afirmou à equipe da série documental "O Mistério de Varginha", que orientou militares a negarem os relatos, caso se sentissem inseguros.
“Um dos militares do Corpo de Bombeiros que deu informação contrária o fez por minha orientação. Eu disse: fiquem à vontade. Se, amanhã ou depois, os senhores ainda se sentirem inseguros para prestar qualquer depoimento e acharem melhor, para proteger vocês e suas famílias, fiquem à vontade para negar tudo. Eu não vou me sentir ofendido, nem traído”, disse Pacaccini.
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Militar do hospital manteve versão, mas há suspeita de pagamento
Um segundo militar, que diz ter visto uma criatura no hospital, manteve a versão apresentada há 30 anos, sob condição de anonimato. Ele reafirmou para a equipe de "O Mistério de Varginha", ter participado da operação de retirada do suposto ser.
“Olha, o dia 20 de janeiro foi algo meio atípico. Eu me deparei com uma caixa, não, não era uma caixa, parecia uma mesa cromada, algo como inox. Eu só vi os pés e as protuberâncias. Para mim, parecia uma pessoa queimada. Mas foi muito rápido, coisa de segundos. Eu nunca imaginei que pudesse ser essa criatura que vem sendo descrita e comentada há 30 anos”, disse o militar no documentário.
Outras testemunhas ouvidas no documentário, no entanto, alegam que ele teria recebido dinheiro para sustentar o relato.
"No caso Varginha, muita gente ganhou dinheiro. Eu tenho certeza absoluta que a principal testemunha militar já ganhou muito dinheiro e pretende ganhar mais", disse o ufólogo Ubirajara Rodrigues.
Ricardo Melo, ex-motorista da Escola de Sargentos das Armas (EsSA), também teve o nome associado ao caso. Ele nega qualquer participação e afirma que a história foi artificialmente construída. Segundo ele, um colega teria admitido que gravou depoimentos após receber oferta financeira.
Militar que teria visto criatura em hospital manteve versão 30 anos depois
Reprodução TV Globo
"Acredito que alguém que conhecia a nossa rotina, alguém do meio militar da época, inventou essa história e ganhou alguma coisa para lucrar com isso. Eu desconfio de uma pessoa e cheguei a conversar com ela. Ele me disse que ofereceram dinheiro para que gravasse um depoimento e citasse o nome de várias pessoas para montar essa história do ET de Varginha. Ele disse que se soubesse da repercussão que o caso teria, teria pedido mais dinheiro para falar e ajudar a montar essa história", relatou.
O segundo militar ouvido pela equipe de "O Mistério de Varginha", negou que tenha recebido dinheiro para inventar a história.
"Não. Não ganhei dinheiro. Ofertas eu tive, mas eu não ganhei dinheiro", disse o militar.
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Terceiro militar relata promessa de pagamento e arrependimento
Após meses de negociação com a equipe do documentário, um terceiro militar aceitou falar e fez a denúncia mais direta. Ele afirma que o depoimento foi ensaiado e condicionado à promessa de pagamento.
“A gente sempre ficava junto: eu, o ufólogo Pacaccini e mais um militar do Exército, que foi quem me apresentou a ele. Tudo isso foi criação e invenção da cabeça do Vitório. Ele me contou essa história e perguntou se eu poderia gravá-la com ele. Eu era jovem demais, inocente, e acabei caindo na conversa".
"Era uma história ensaiada, criada por ele. Naquela época, ele dizia exatamente o que tinha que ser falado: ‘essa situação é assim, assim, assim’. E a gente ia falando de acordo com o que ele queria que fosse dito. Ele prometeu muita coisa. Para alguns, honrou a palavra; para outros, não".
"No dia da gravação, eu fiquei muito nervoso e não conseguia falar. Foi quando ele disse: ‘calma, mantenha a calma, vou te mostrar uma coisa’. Então começou a me mostrar gravações de outros militares. ‘Está vendo? Esse aqui gravou comigo, esse aqui também’. Ele dizia que eu não precisava ter medo e chegou a afirmar que tinha dado uma moto para um, dinheiro para outro militar que o levou até lá”, disse o militar.
Terceiro militar relata promessa de pagamento e arrependimento
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O militar ainda disse que não chegou a receber a quantia que foi oferecida.
“Na época, ele me ofereceu uma quantia que acredito ter sido de cinco mil reais. Em 1996, isso era muito dinheiro. Poderia ter mudado a minha vida. Eu era um menino da roça, sem experiência, praticamente uma criança. Ele pagou? Não. Depois que eu dei baixa no Exército, ele sumiu e nunca mais tivemos contato", relatou.
"Eu me arrependo muito, porque foi uma história que não aconteceu. A única coisa que eu ganhei com isso tudo foi uma culpa enorme. Naquele dia, a gente vendeu a alma para o diabo”, afirmou.
“Varginha é uma cidade como qualquer outra. Aí surgiu um personagem como esse, que inventou toda essa história e acabou projetando a cidade. Hoje, no cenário mundial, tem muita gente ganhando dinheiro em cima de uma história que não aconteceu”, completou o militar.
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Ufólogos negam pagamentos e falam em tentativa de desmoralização
Vitório Pacaccini negou para a equipe do documentário qualquer tipo de pagamento ou manipulação.
“Nada disso nunca existiu. Ninguém convenceu ninguém de nada. Fui eu quem solicitou os depoimentos. No dia em que conheci o militar dois pela primeira vez, fui apresentado a ele por um amigo de infância, que nos colocou em contato. O militar três estava junto. Quando conversei com o militar dois, também falei com o militar três no mesmo dia, à noite, em um encontro reservado", disse o ufólogo.
"Eles já haviam me narrado os fatos de forma espontânea e demonstravam muito medo. Eu disse a eles: fiquem tranquilos, dou a minha palavra, o meu nome de família, está todo mundo protegido'. Por razões escusas, outras pessoas passaram anos tentando criar atritos ou tumultos de qualquer natureza, com o objetivo de prejudicar a nossa pesquisa.
Ufólogo Vitório Pacaccini nega que depoimentos de militares foram forjados
Reprodução TV Globo
O ufólogo Marco Antônio Petit de Castro também rejeitou as acusações.
“Eu não tenho nenhum conhecimento, nem por parte do próprio Pacaccini nem de qualquer outra pessoa, de que tenha havido qualquer tipo de favorecimento financeiro para que uma das três fontes militares, à época, prestasse seus depoimentos. Nós, além de não brincarmos de fazer ufologia, a gente sabe realmente tudo aquilo que a gente já passou e porque ainda estamos hoje na defesa dessa história”, disse o ufólogo Marco Petit.
Relatos das meninas são tratados como distintos
Apesar das suspeitas e controvérsias envolvendo depoimentos de militares, parte dos ufólogos faz uma distinção clara em relação aos relatos das três meninas que afirmam ter visto a criatura em Varginha.
“Se você analisar a história do começo ao fim, vai perceber que ela reúne todas as nuances de uma fábula, de uma lenda. Na minha concepção, o que há de autêntico no caso é apenas o depoimento das três senhoras; o restante foi construído a partir de suposições, inverdades e crendices em geral”, afirmou.
Relatos das meninas são tratados como distintos
Reprodução TV Globo
Para o ufólogo Ubirajara Rodrigues, esses testemunhos se mantiveram coerentes ao longo do tempo, diferentemente das versões que surgiram posteriormente.
Gostaria de dizer que foram muito sinceras, muito dignas em manter a autenticidade daquilo que viram, tanto na época quanto hoje. Isso é importante demais. É assim que a dignidade das pessoas é mantida e que podemos avaliar o quão honestas elas são”, concluiu.
O Mistério de Varginha
Ao longo de três episódios, a série documental “O Mistério de Varginha” revisita o caso que ganhou repercussão internacional há 30 anos no Sul de Minas, reunindo depoimentos inéditos, além de documentos, áudios, arquivos históricos e registros oficiais nunca exibidos. A investigação apresenta diferentes versões sobre o que teria acontecido na cidade e confronta relatos que marcaram o episódio.
Entre os entrevistados estão personagens centrais da história, como o ufólogo Ubirajara Rodrigues, o primeiro a investigar o caso. A série aborda a mudança de posição dele ao longo dos anos, já que, depois de defender a existência da suposta criatura, passou a afirmar que ela nunca existiu. O documentário também traz depoimentos de militares, relatos de moradores e a recuperação de materiais jornalísticos da época.
TV Globo exibe série documental ‘O Mistério de Varginha’
Jackson Amorim/EPTV
A produção acompanha ainda Kátia, Liliane e Valquíria, conhecidas como as “três meninas do ET”, que relembram o episódio e mostram como estão atualmente. Dirigida por Ricardo Calil e Paulo Gonçalves, a série vai ao ar após O Auto da Compadecida 2 e também ficará disponível no Globoplay, com produção executiva de Fernanda Neves e direção artística de Monica Almeida.
Veja FOTOS dos bastidores:
'O Mistério de Varginha'
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